• terça-feira, outubro 20th, 2009

Queridos e Queridas,

Carbono Zero é a nossa meta

Nada melhor do que boas notícias para a gente recomeçar uma conversa, não?

Neste ano a Escola Ânima completa 25 anos de existência!!!!

Preparamos muitas coisas para celebrar esta data, esta conquista. Algumas delas serão pontuais, outras vem sendo feitas no decorrer de todo este ano. Uma das mais deliciosas é nosso projeto de neutralização de nossas emissões de carbono.

Desde o ano passado, em parceria com a Max Ambiental, uma empresa especializada, vimos calculando quanto carbono lançamos na atmosfera com nosso consumo. É um cálculo que envolve muitas variáveis: o lixo que produzimos no período de um ano, quanto de energia elétrica consumimos, quanto de combustíveis fósseis, como gás e gasolina.

Calcular quanto emitimos de carbono, entretanto, é apenas o começo da história; ainda é preciso calcular quantas árvores precisaremos plantar e manter para que nossas emissões de carbono sejam neutralizadas.

Bem, passamos um tempo fazendo todos estes cálculos e escolhendo um lugar para plantar nossas árvores. Escolhemos a Fazenda Japiápé, que fica no munícipio de Cajamar, em meio a Área de Proteção Ambiental da Serra do Japi. Para receber nossas mudas, a Fazenda Japiapé precisou passar por um processo de certificação, pois era necessário demonstrar que as mudas que plantássemos ali ficariam protegidas até efetivamente crescerem e se tornarem árvores.

Depois, precisávamos de 250 mudas de espécies nativas de Mata Atlântica, cobertura original da região. Foi a vez do Instituto Estre Ambiental nos ajudar, fornecendo as mudas no tamanho recomendado pela agrônoma, outra variável que podíamos controlar para assegurar que as plantas crescessem e virassem as árvores que manteriam o carbono do nosso consumo fora da atmosfera.

Tudo pronto? Quase tudo… Com o lugar, o cálculo, as mudas, só precisávamos do dia de amanhã: quando nossos alunos e alunas vão plantar, cada um deles uma muda de árvore. Afinal, tudo o que falamos para as crianças sobre as responsabilidades individuais e responsabilidades coletivas sobre nosso próprio destino e o destino do planeta deve ter alguma aplicação prática, não?

No final do ano, convidaremos a todos para uma nova visita à Fazenda Japiapé, para vermos como estão nossas pequenas árvores.

E, quem sabe, daqui a alguns anos, possamos voltar lá e aproveitar a sombra que farão, a beleza das flores e a alegria de ter participado.

Carbono Zero, repetimos, é a nossa meta!

autor: lilian
• quinta-feira, julho 02nd, 2009

A antecipação da alfabetização e a perda do lúdico

Queridos e Queridas,

Como é costume, nossas conversas por e-mail sempre geram outras conversas, outras questões, outras histórias. A conversa com a Dani foi assim também e, a cada nova mensagem, tornava-se cada vez mais rica e interessante. Vejam como neste “condensado” - uma postagem que agrega o primeiro e-mail com as perguntas, e o segundo, com as respostas:

Li,

Me ajuda com mais algumas dúvidas?

Por que houve essa mudança na lei da escola, que trouxe esse adiantamento no processo de alfabetização?
Tem a ver somente com uma questão política e econômica, de repasse de verbas das instâncias governamentais? Ouvi isso de passagem e fiquei apavorada!

1. A mudança da lei: ela não atrasa nem adianta processos de alfabetização, apenas determina uma idade diferente para o ingresso na escola de ensino fundamental. Veja bem, não há nada na lei que determine o que se estuda na escola de ensino fundamental, portanto não há alteração de currículo. Sim, ela atende a interesses mais ligados à escola pública, como a destinação de verbas e atribuição (federal, estadual ou municipal) sobre os níveis de Ensino.

Por que há tanta resistência em ensinar a escrita pras crianças mais novas?

2. Quem resiste ao ensino da escrita para crianças mais novas? Tenho observado o contrário, um desejo desmedido de antecipação de ensinar não só a escrita, mas tudo antes, muito antes do que se faz classicamente, por motivos dos mais esquisitos: janelas de oportunidade, inteligências múltiplas, mundo competitivo, mercado de trabalho, sei lá….
Os resistentes são poucos e bravos….

Ela tem o poder de acabar com o lúdico, de anular possibilidades criativas? Destrói algum encanto? Eu não compreendo isso.

 

Como saber se o ensino da escrita e dos números está sendo apenas uma “brincadeira” ou se está sendo alfabetização de verdade?

3. Não há conteúdo ou conhecimento, exceto o sexual, que tenha poder, por si, de acabar com o lúdico, mas há um montão de adultos com este poder, sim. Então, se para ensinar uma criança de três ou quatro anos - ou sete, oito, dez anos - a escrever ou o que quer que seja, considero necessário que ela passe todo o tempo sentada e inativa, atenta ao que um adulto fala ou mostra, ou dedicada a um sem número de atividades gráficas que consomem seu tempo, olhos e dedinhos, bem algo está errado e o lúdico será certamente extinto, se por mais nada, pela falta de tempo para ele….

É preciso lembrar, sempre, que ler e escrever são verbos transitivos diretos, não? A gente lê e escreve algo e são esses muitos algos aos quais se tem acesso por meio da leitura e escrita que, no limite, vão eliminar o lúdico, ou, antes, transferi-lo para outras instâncias da atividade humana, como a literatura, por exemplo.

O que é feito na Waldorf de tão diferente das outras escolas?
Por que não há vagas e há tanta procura nas escolas Waldorf? Você conhece a pedagogia? Qual sua opinião?

4. Escolas Waldorf exigem convicção e fidelidade. Baseadas nas teorias de Rudolph Steiner, falam de uma forma de estar no mundo, muito mais do que uma escola. Pedagogicamente, tem problemas que considero severos, mas é sempre preciso considerar o que se deseja para nossas filhas para fazer esta avaliação (lembre-se que você pediu minha opinião, não uma avaliação técnica!). Conheço bastante bem esta modalidade de educação e, se você quiser, podemos conversar mais longamente sobre isso.
O problema de vagas é mais fácil: são poucas escolas e, como disse, atendem a famílias fiéis….

Beijos,
Lilian

• terça-feira, junho 30th, 2009

A alfabetização e a familiarização com os símbolos gráficos

Queridos e Queridas,

Continuando nossa proposta de tornar públicas conversas interessantes que acontecem por e-mail e, assim, particularmente, publicamos agora a conversa com a Dani, mãe de uma aluna de nosso G5.
Dani participa de um grupo de discussão, também virtual, destinado a mães e pais de crianças desta idade e usou, para responder à pergunta de outro membro do grupo, algo que já havíamos discutido em uma de nossas reuniões de pais, aqui na Ânima.

Assim, começaremos essa nova partilha com o texto que a própria Dani escreveu para responder à dúvida de sua companheira de grupo e de maternagem:

Escrevi esse email abaixo há pouco para algumas mães da minha lista de discussão, quando apareceu uma mãe apavorada porque seu filho de 5 anos está tendo muitas lições de casa para aprender a escrever as letras cursivas.

Tentei resgatar o que ficou pra mim daquela palestra sobre alfabetização e os conteúdos do G5 e 1o ano:

Eu também tinha essa preocupação com a alfabetização da Clara, que está com 4,6
anos.

Ela já conhece todos os números e letras do alfabeto e está aprendendo a
escrever todos eles em letra de forma.

Faz tudo ao contrário, faz letra emendada, voando, fora de ordem, eu dou
risada. E apóio e oriento as lições dela, que sempre pedem para fazer um
desenho e depois as letras da palavra desenhada.

Percebo que há muito interesse dela sobre isso, muito mesmo, principalmente
depois que ela descobriu que eu uso essas letras o dia inteiro porque fico no
computador trabalhando.

Ela quer entender o que eu faço e aprender as letras
é como ela acha que pode compartilhar esse conhecimento comigo.

Numa reunião na escola da Clara com a diretora pedagógica, acabei
convencida de que esse relacionamento das crianças com as letras e os
números não é alfabetização ainda, mas uma familiarização das crianças com sinais
gráficos, uma vez que aos 4 ou 5 anos elas já começam simbolizar
mais.

Segundo ela, mesmo se relacionando com as letras desde os 4 anos, as
crianças não aprendem a ler (ainda que algumas o façam, meio sem querer).

A maioria acaba escrevendo as letras desde os quatro, mas só consegue ler de verdade
aos 7 ou 8 anos, como num passe de mágica, pois esta é uma aprendizagem que envolve muito mais do que meramente desenhar letras e números e leva muito tempo para ser organizada.

O que a escola está trabalhando não é só alfabetização, mas o aprimoramento do campo simbólico.

Ela diz que o objetivo pedagógico não é apenas ensinar a ler e escrever, mas trabalhar mais duas classes de sinais/códigos humanos (números e letras), porque nessa idade as crianças já sacam que existem esses códigos, que os adultos os dominam e com que podem comunicar idéias (assim como elas – crianças – já sabem que podem comunicar
idéias
com os desenhos que elas produzem).

O aprendizado da escrita acaba chamando mais a atenção dos pais no conjunto da
obra, não se sabe bem porquê, mas no G5 da Ânima a escrita é trabalhada diariamente, embora de formas muito diferentes, é também trabalhada desde que as crianças são muito pequenas, muito menores do que os cinco anos de sua filha, assim
como o desenho, a música, a pintura, as atividades motoras, enfim, é mais
uma dentre as tantas atividades que as crianças têm durante o período escolar.

Como ela confere um certo “poder” às crianças, porque elas se sentem mais
“adultas” achando que dominam um código antes pertencente exclusivamente ao
mundo dos adultos, elas acabam dando mais destaque a esse aprendizado do que aos
outros, então parece que estão aprendendo só isso. Mas não é por aí.

Eu me convenci disso. O que parece a vocês?

Espero ter ajudado,

Bjs, Dani

• terça-feira, junho 23rd, 2009

Queridos e Queridas,

Continuamos a falar sobre mesada, dinheiro e consumo, como parte de nosso projeto de compartilhar dúvidas, questões, pensamentos, idéias que começam de forma particular, mas que nos tocam a todos, não é mesmo?

Conforme prometido, aqui está a resposta à pergunta de Renato e Roberta:

Ro, querida,
A vida nunca é fácil como deveria, não é mesmo?

Muito bem, vamos por partes.

A questão, aqui, não é o dinheiro (nunca é) mas o valor das coisas, neste caso, um valor que também é monetário.

Assim, é preciso ensinar que dinheiro é mercadoria de troca, ou seja, Lucas tinha 30 reais mais um tanto em moedas e acabou esta história com dois carrinhos que valem o mesmo que o dinheiro que ele tinha antes mais 12 reais, que ele ficou devendo.

Entendeu?

Não?

Vamos de novo: quando compramos alguma coisa, escolhemos trocar aqueles papeizinhos que chamamos de dinheiro por coisas de igual valor. Assim, o valor não se altera, apenas o formato da coisa.

Ao trocar o dinheiro com você, ele padeceu da ilusão de que podemos, por algum motivo especial, ter tudo…. bem a ilusão é comum, mas a realidade é mais comum ainda: não podemos ter tudo!

Daí a sugestão sempre boa de pensar bem antes da troca, porque depois as coisas complicam.

Quanto à mesada: acho que alguma coisa em torno de cinco reais é mais do que interessante, desde que este dinheiro não seja destinado a gastos do cotidiano, tipo lanche na cantina

.
É preciso entender que a única função de uma mesada para uma criança dessa idade é ensiná-la a tomar suas decisões monetárias e éticas.

Se a gente der o dinheiro com destino prestabelecido, justamente isso se perde.

Isto posto, é preciso saber que eles fazem um monte de asneiras e tomam decisões que arrepiam os cabelos de qualquer cristão, como comprar um monte de balas ou coisas que são negadas (como o carrinho), ou pior, proibidas (não sei vocês, mas na minha casa era o cd da Xuxa, por exemplo) pelos pais.

Em casa, a regra era a seguinte: o que eu negava, ela podia comprar com o dinheiro dela; o que eu proibia, dinheiro nenhum poderia comprar, porque as razões não eram monetárias, eram éticas, neste caso, estéticas também, e dinheiro não muda estas razões, não importa quem seja o dono.

Bem, é sempre bom lembrar que asneiras são a maior parte e a mais importante de qualquer aprendizagem, então, respirem fundo.

Finalmente, Fefa: muito mais fácil.

É só dizer a ela, e sustentar, que mesada é coisa de menino e menina grande, como o Lucas, que ela ainda não chegou lá, mas chegará, é só esperar e, então, terá mesada.

Por enquanto, ela poderá coletar as moedinhas de troco, como o irmão fazia até agora, pois isso é o que fazem as crianças menores.

Além disso, quando chegar o tempo dos dentinhos dela caírem, aí o capitalismo impera e a fada do dente lhe dará uma destas pequenas fortunas…..

Ufa, acho que foi tudo, mas se não foi, escrevam novamente,

beijos,

Li

Escola Anima

autor: lilian
• sexta-feira, junho 19th, 2009

Postura pedagógica

Queridos e Queridas,
depois de longo e tenebroso inverno (expressão que me pareceu especialmente apropriada neste frio!), estamos de volta, morrendo de saudades desta interlocução com vocês.
Inauguraremos hoje, uma nova modalidade de postagem, sugerida pelo Renato e imediatamente acolhida por nós com alegria: a publicação de conversas que começam como uma comunicação entre famílias e escola por e-mail.
Algumas das famílias que atendemos têm preferido esta forma de consulta à escola sobre os mais diversos assuntos. Afinal, é uma tecnologia confortável e, nesse caso, interessante, porque economiza o deslocamento e a elaboração escrita de perguntas e respostas sempre é enriquecedora.
Assim, com a autorização de Renato e Roberta, pais de Lucas e Fernanda, aqui vai a primeira:

 

Caros leitores do blog da Ânima

Fizemos, eu e Roberta, minha esposa, uma consulta “pedagógica-ética” sobre uma questão que, ao ler o email-resposta da Lilian, me sugeriu: isso daria um excelente post no blog.

Então inauguro, aqui, minha carreira de proponente de temas!!

Nosso filho de 7 anos, escolheu, recentemente (e alertado profundamente pela mãe sobre as consequências e importância desta decisão) trocar todo o seu cofrinho, que continha moedas acumuladas durante sua vida e dinheiros ganhos da fada-do-dente, por 2 carrinhos do filme “carros”, com custo equivalente a (numa escala que eles compreendem) 1 mês e meio do ‘dinheiro da cantina’.

Isso gerou em nós, pais, uma reflexão sobre as escolhas dele, como conscientizá-lo das consequências destas, e ao mesmo tempo, sobre como instrumentá-lo, uma criança, para lidar com dinheiro, valores, desejos, enfim, se a Pixar soubesse, faria um seriado!!

Para animar a festa, nossa filha de 3 anos assistia a isso tudo de camarote, e, animada com a questão, começa a reivindicar comprar coisas com seu cofrinho também e mesada!!!

Uma alegria nas lojas americanas!

Ao recorrer à Lilian para entender como lidar com esse(s) nós e ao ler sua resposta, ficou esse desejo de compartilhar essa etapa do crescimento dos nossos pequenos com voces leitores, sugerindo esta reflexão, para os que já lidam e os que lidarão com isso…

Bom, com isso, imagino que todos estarão curiosos para saber qual foi a resposta da Lilian, acho que ninguém melhor que ela para continuar!!!

Abs a todos,

Renato salgado

Muito bem, assunto introduzido…. Como de costume, continuamos no próxima postagem, que será logo, não se preocupem….

Ah, aproveito para lembrá-los que amanhã tem Festa Junina e que será linda, pelo menos a julgar pelo que as crianças andam fazendo por aqui esta semana! Eu, se fosse vocês, não perderia por nada deste mundo!!!!!

Abraços grandes e até a festa!

Escola Anima

• terça-feira, maio 26th, 2009

Queridos e Queridas,

as coisas andam meio paradas por aqui, mas é que começamos o processo de feitura dos relatórios e isso consome um montão do meu tempo.

Além disso, temos algumas pendências, que estou tratando de resolver. Descobri que podemos por músicas aqui, sim, Tatiana.

Então, pedi ao Cadu, nosso professor, que grave as crianças cantando em suas aulas e logo que estes arquivos estiverem disponíveis, colocarei aqui para todos. Acho que vai ficar bacana, vamos ver.

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A outra pendência não é exatamente uma pendência, mas um convite. Embora eu esteja muito envolvida com os relatórios, lembrei de que este, desde o início, é um espaço de todos nós! Assim, não preciso ser sempre eu a postar, todos vocês podem fazê-lo!!!! Espero que façam mesmo!

Para isso, basta enviar a postagem para o e-mail da Ânima, que eu coloco aqui, para todos!

Nosso endereço está disponível em nosso site, mas aqui vai um link para facilitar a vida:

contato@escolaanima.com.br

Esperarei por suas contribuições!

Abraços imensos e saudosos dessa nossa gostosa interlocução!

• quinta-feira, maio 07th, 2009

Neste sábado temos a atividade de comemoração do Dia das Mães aqui na escola!
Todos estão convidados!
Organizem-se, venham, aproveitem o dia com as crianças, afinal, este é sempre um jeito bacana de começar o que pode acabar sendo mais um dia perfeito para nossas coleções pessoais!!!!

• quinta-feira, maio 07th, 2009

Queridos e Queridas,

Como nossa discussão sobre o Enem e suas interpretações foi transferida para outra instância, achei que poderia ser bem interessante retomarmos aqui nossa discussão original sobre a ilusão de perfeição e o lugar que ela vem ocupando no imaginário de todos nós, pós-modernos, especialmente estes de nós que resolvemos aceitar o desafio e a aventura que é ter filhos e filhas.

Como disse antes, vocês são rápidos e suas participações fazem a discussão andar por rumos novos e inesperados.

Nos comentários de vocês, aparecem duas idéias fortes que, creio, podemos explorar juntos: a perfeição como ideal, por definição inalcançável, mas que mantida como referência nos proporcionaria um percurso de aproximações sucessivas desejável e a negação completa da perfeição, até mesmo como ideal desejável, e sua substituição por idéias mais relativas, como “o possível” ou “o melhor de si”.

Pessoalmente, fui convencida, ao longo da e pela vida, de que “o possível” ou “o melhor que podíamos para o momento” é a única coisa com que podemos contar certamente. E esta é uma posição que me parece interessante pelos motivos que passo a elencar.

Primeiramente, saber que fazemos “o melhor que podemos para o momento” não gera culpa. Mesmo que analisemos a situação posteriormente e, então, descubramos que havia, sim, alternativas interessantes para aquela que, eventualmente, escolhemos, aí já é outro momento e a análise se beneficia de elementos que não estavam disponíveis quando da escolha – como, por exemplo, os efeitos e desdobramentos que todas as escolhas trazem em si – e aí, não vale, é claro.

Por outro lado, e como segunda vantagem intrínseca, a análise posterior, esta mesma que conta com os tais novos elementos, se dá, obviamente, em outro momento, e isso significa sempre que podemos aprender, pois se tivéssemos que escolher novamente, agora, escolheríamos diferentemente e, supostamente, melhor, pois sabemos mais sobre o objeto da escolha do que sabíamos antes.

Terceira vantagem, complementar à segunda: na maior parte dos casos, as escolhas não são fatalismos – sempre há possibilidade e tempo para reverter, mudar de idéia, fazer correções desejáveis. A vida anda.

Quarta e a mais importante das vantagens: convencer-se de que não só nós mesmos, mas todos, fazemos nossas escolhas assim, apresentando “o melhor que podem para o momento” e, por extensão, todas se beneficiam das vantagens já enumeradas, conseguimos uma dimensão generosa de compreensão para nossos pares e iguais que transforma todas as nossas relações.

Muito bem, agora façam comigo um breve exercício: apliquem cada uma das vantagens apresentadas ao cotidiano que todos vivemos com nossos filhos e filhas. Acresçam a isso o espaço para surpresas e inesperados que esta posição traz em si, necessariamente…

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Bem, não sei se consegui convencê-los, nem sei se era isso que queria, realmente, mas posso declarar que em minha vida e em retrospectiva, isto me garantiu uma deliciosa coleção de dias perfeitos, cujas histórias minha filha não se cansa de ouvir.

• quarta-feira, abril 29th, 2009

Queridos e Queridas,

Vocês são mesmo sensacionais!!!! Com seus comentários, economizamos anos – séculos, para ser mais precisa – de história da filosofia ocidental e podemos aproveitar melhor o mote do dia: a análise dos resultados do Enem 2008, divulgada hoje nas primeiras páginas dos jornais.

Apenas para manter a linha de nossa discussão, vamos organizar o que vocês já disseram, estabelecendo que desde o Renascimento e o abandono da idéia de que somos “imagem e semelhança” de algum deus, ficamos liberados da perfeição como algo realizável – esta ficou para a divindade – e fadados à perfeição como um ideal interessante. Ou seja, ficamos convencidos de que não é possível ser perfeito, mas não custa nada tentar, porque qualquer aproximação é interessante, uma vez que estas aproximações sucessivas nos levariam ao que vocês estão chamando de “dar o melhor de si”.

Parece um alívio, não é mesmo? Pois é, mas o problema de “dar o melhor de si” é o tal do pronome pessoal, como bem argumentou Leonardo (aliás, obrigada por Clarice, Léo, sempre um presente!), em seu comentário. Nós pedimos aos filhos e filhas que deem o melhor de si, mas como sabemos o que é mesmo esse melhor em cada situação dada para cada um deles? Então, não sabemos! Para decidir se o investimento de alguém foi o melhor possível para aquela pessoa naquele momento só há duas formas possíveis: comparar o desempenho ou os resultados obtidos por ela com os resultados obtidos por outros mais ou menos iguais ou perguntar à pessoa e tomar como verdadeira a resposta: você deu o melhor de si?

precisamente

Por motivos para mim misteriosos, a primeira opção parece ser a mais usual, a preferida. E aqui chegamos ao Enem.

A classificação das escolas está em todos os jornais de hoje e as análises sobre os dados obtidos no Enem são fartas e plurais. Não encontrei, entretanto, uma análise que mostrasse o limite desta informação, limite importante para entendermos tudo o mais que se diz a respeito, inclusive a tão famosa classificação das escolas.

Vamos a ele, então: o Enem é um exame nacional de participação voluntária e com um fim pragmático. Em outras palavras, o Enem só é feito por aqueles que querem fazê-lo e estes costumam fazê-lo com um propósito bem específico: acumular pontos para o vestibular, preferencialmente o exame das grandes universidades estaduais ou federais.

Isso significa que as escolas que obtiveram os melhores resultados podem perfeitamente estar falando da participação exclusiva de seus três melhores alunos, todos eles interessados em ingressar nos cursos de medicina ou mecatrônica da universidade federal mais próxima.

Vamos ampliar a análise dos desdobramentos deste limite sobre as interpretações dos resultados do Enem, mas agora com a participação de vocês todos, que torna tudo mais interessante, sempre.

Abraço enorme e agradecido por seu interesse e envolvimento, que tornam meu trabalho aqui muito, muito mais divertido!

• sexta-feira, abril 24th, 2009

Queridos e Queridas,

abertura oficial deste espaço para toda a comunidade escolar estendida, que é um jeito muito chique de dizer: todos aqueles que têm algo a ver com a Ânima, seja por interesses diretos, indiretos, ou mera simpatia, que é um forma carinhosa de se interessar por algo.
Aproveitamos este novo começo para inaugurar também um novo tema, sugestão da Regina, mãe da Anouk. E que tema! A própria idéia de perfeição e de que forma ela encontra nossos desejos e angústias nas mais diversas tarefas do cotidiano, entre elas e especialmente, as decisões que tomamos acerca de nossos filhos e filhas.
Precisei de um intervalo para alguma pesquisa inicial, tentativa de coletar algumas idéias que nos dessem estofo e permitissem o início da conversa que, logo - espero e conto com isso -, será largamente ampliada pelas participações, opiniões, posições, contribuições de todos vocês.
Assim, uma vez mais, sintam-se muito bem-vindos, queridos, desejados, esperados!

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Quando li pela primeira vez a sugestão da Regina, pensei: interessante mesmo, mas difícil, difícil…. Mas esse é um espaço entre amigos e, por isso, um espaço de conforto, um espaço em que se conversa sobre o que quer que seja, sem o compromisso das Leis e Normas e regras gerais de funcionamento da academia, sem o compromisso com a perfeição, não é mesmo? Assim, o desafio, embora difícil ainda, torna-se possível, quem sabe até divertido!

Minhas pesquisas iniciais mostram que o conceito de perfeição não é absolutamente novo para a humanidade, muito pelo contrário: é um dos mais antigos, um dos primeiros que essa nossa cultura humana deu conta de elaborar.

O próprio termo que o nomeia – em nossa própria língua e em quase todas as línguas ocidentais - tem sua origem no Latim e inclui a idéia de completude (o prefixo per), de totalidade.

Assim, na origem, algo perfeito significaria aquilo que teria sido feito (este é o radical do termo faccere, ou fazer) de tal forma que excederia o necessário à mera existência, algo tão bem feito que alcançaria o estatuto de modelo exemplar do que quer que seja. Desta forma, uma ferramenta perfeita, seria A Ferramenta entre todas as demais, aquela que reuniria todos os atributos e qualidades que, de outra forma, encontraríamos apenas distribuídos entre o conjunto de todas as ferramentas existentes.

Complicado? Nem tanto… Mantendo nossa metáfora, A Ferramenta perfeita seria aquela que reuniria, em si, os atributos funcionais do martelo, do alicate, da chave de fenda, etc. Ampliando a metáfora, seria o mais perfeito canivete suíço!

Bem, começamos…. vamos ver para onde essa discussão se encaminha com os comentários e contribuições de vocês…
Por enquanto, gostaria que mantivéssemos algumas dessas idéias originais como cabos-guia para nossa discussão: a noção de completude, a idéia de que a perfeição se liga a algo feito, a um trabalho, portanto, e, finalmente, a idéia de que a perfeição, caso exista, é necessariamente singular.